“Vestibular” Americano

“Vestibular” Americano – Jovens Brasileiros São Bem Vindos

Não sei como anda o vestibular no Brasil com o Enem, mas estou descobrindo o processo que os jovens americanos enfrentam para entrar numa faculdade nos Estados Unidos com fascinação.

Enquanto no Brasil o sistema é 100% acadêmico, pelo menos era nos meus tempos de vestibular—no fim dos anos 80; nos Estados Unidos usa-se o que eles chamam de Processo Holístico. Não se leva em consideração apenas o resultado de testes, mas sim o conteúdo de dissertações sobre temas da atualidade, e outras de conotação pessoal do tipo: “Por que você acha que essa é a universidade certa para você?” Também são solicitadas cartas de recomendação, e detalhes sobre suas atividades extracurriculares. Bons atletas, músicos, bailarinos, cantores, atores, escoteiros, etc. devem expor estes aspectos de suas vidas. Atletas são particularmente bem vindos, chegando a receber bolsas de estudo integrais. Jovens músicos que tocam instrumentos clássicos como violino, viola, oboé, etc. também são bastante cogitados, dependendo da sua habilidade. Sem falar em intermináveis questionários online onde entram-se detalhes da vida inteira.

Outra diferença bastante interessante refere-se aos testes. No Brasil, no meu tempo, para cada universidade (university) ou faculdade (college) o jovem precisava passar por uma bateria de testes. Se você quisesse tentar entrar em 8 (oito) faculdades, tinha que participar de 8 vestibulares, ou prestar 8 vestibulares, e tinha que passar por 8 testes diferentes, sendo que alguns deles envolviam mais de uma fase. Nos Estados Unidos, os jovens escolhem entre dois testes padronizados, o SAT e o ACT (ambos oferecidos por companhias independentes), sendo que faculdades de elite (chamadas Ivy League, como Harvard, Yale, Princeton e Stanford entre várias outras), e de ciências exatas em geral, exigem o ACT. Além destes testes que cobrem inglês, matemática, e análise de dados, também são oferecidos testes específicos para matérias como química, biologia, física, história, e idiomas estrangeiros. A grande vantagem deste sistema é que os jovens fazem testes relacionados aos seus interesses. Assim, se o objetivo é entrar numa faculdade de engenharia, não é necessário fazer teste de história, por exemplo. Os jovens fazem os testes que enriquecerão seus currículos de acordo com as faculdades para as quais querem se inscrever. E usam os mesmos resultados para todas elas. É bastante prático. Faz-se os testes, e no website da empresa que os organiza marca-se as faculdades e/ou universidades para as quais se pretende “prestar”, e todas recebem formulários pelo correio no seu nome, com os seus resultados.

Outro aspecto que eu estou achando muito bacana sobre esse sistema é que respeitando-se um intervalo, que varia de acordo com o teste, pode-se repetir os testes quantas vezes se desejar. Por exemplo, se o resultado do ACT na primeira tentativa oficial não foi satisfatório, tenta-se de novo em alguns meses. As faculdades que estão na sua lista verão todos os resultados, mas dentro de um certo número razoável de tentativas (digamos no máximo três num período de um ano), elas apreciam o esforço dos jovens em estudar, e registram seus melhores resultados em cada matéria, e em cada teste, no processo final de avaliação. Isto sem contar a chance de se fazer os testes nas datas oficiais sem que se registrem os resultados oficialmente, estes são chamados testes preparatórios ou Prep-SAT (PSAT), por exemplo. Pode-se fazer Prep-Tests para todas as matérias nas datas oficiais, basta marcar a opção prep na hora da inscrição. Alguns jovens começam a fazer pre-tests na oitava série para saber em que matérias eles precisam se dedicar mais e para quais matérias eles tem uma aptidão natural.

Pronto, fácil fácil, basta ter excelentes notas que todo o mundo fica sabendo.

Currículo, porém, é a palavra-chave. O processo americano mais parece o de construir um currículo vitae onde os jovens descrevem capacidade intelectual, interesses, habilidades e experiências de vida. Não basta, de longe, ser bom aluno e se sair bem nos testes padronizados, tem que ter algum talento especial ou interesse ao qual se demonstra compromisso de anos, e alguma estória de vida para contar.

Vamos começar com o tal do interesse, é por aí que se começa a compreender a verdadeira obsessão dos pais americanos com associações, voluntariado, clubes esportivos de bairro, artes, etc. etc. Como dizemos no Brasil, é de pequenino que se torce o pepino, pois é, gracinhas a parte, é logo entre 4 e 6 anos que as crianças americanas, de pais bem informados, começam a praticar esportes como natação, futebol americano (aquele que se joga com as mãos) e o nosso tradicional de bola no pé que aqui chama-se soccer (daí o termo, tradicionalíssimo, soccer-mom – mãe que leva filho para cima e para baixo por conta de atividades extracurriculares), balé, tênis, reuniões de escoteiros, coral musical, orquestra, banda, clube de xadrez, de debate, de soletrar, de desenhar, de inventar (falando sério, chama-se “makers” ou uma variação de criadores em inglês, começa com lego e vai ficando cada vez mais sofisticado até chegar a robótica, tem até robô de lego), enfim, as opções são inúmeras. Isso é bacana, pois existem atividades para todas aptidões e personalidades, mas por outro lado, pode ser bem complicado para se decidir ao que se dedicar. Todos sobrevivem, porém, e após alguns anos batendo cabeça entre várias atividade, lá pela sexta série, a primeira do ginasial (middle school) as crianças com alguma aptidão particularmente especial já foram identificadas. Tipo aquele molequinho que logo na terceira aula de natação já colocava duas piscinas na frente dos coleguinhas, pois é, acontece mesmo que eu vi, ninguém me contou. As outras crianças que não nasceram com guelras, também já descobriram que curtem ser escoteiras, ou voluntariar no banco de alimentos da cidade, ou desenhar, dançar balé, tocar violino, etc. Se o jovem é absolutamente fantástico em alguma coisa, pode ser que consiga uma bolsa de estudos pelo menos parcial. Mesmo que esse não seja o caso, se a atividade que se gosta for levada com compromisso e seriedade, tipo voluntariar por uma ou duas horas toda semana por anos (algumas escolas, e com certeza os pais, ajudam as crianças a encontrar organizações adequadas para cada idade), o resultado é uma estória de dedicação que fica muito bonita no currículo dos jovens vestibulandos.

Ótimo, você diz, entendi tudo: boas notas no histórico escolar, boas notas nos testes padronizados, e alguma atividade, ou com sorte talento atlético ou artístico, beleza, peguei o jeito da coisa. Ainda não.

Agora vem o detalhe que fecha o currículo ideal, a tal experiência de vida. Por favor, me diga, que experiência de vida para contar tem o jovem de dezessete-dezoito anos, de classe média, numa sociedade relativamente segura, e que cresceu protegido pelos pais? E esse é o grande mistério das dissertações para se entrar nas faculdades e/ou universidades americanas, e que faz com que o processo seja um tanto turvo. Minhas filhas não terão problemas nesse quesito. Através da nossa vida de nômades elas viveram em três continentes, e mudaram de escola tantas vezes, que têm estórias para contar até demais. Porém, tenho muitos amigos americanos cujos filhos não conseguem entrar nas faculdades que gostariam por conta desse fator. A boa notícia para os brasileiros é que o ser brasileiro conta como algo interessante para se explorar numa dissertação. Portanto, jovens brasileiros estudiosos e talentosos, não se acanhem, as universidade americanas estão interessadas em vocês. Se você fala inglês fluentemente e tem condições de bancar os custos de tal empreitada, suas chances de entrar na faculdade americana da sua escolha, incluindo “Ivy League”, são maiores que as chances dos jovens americanos de classe média. Mas se você pensa em estudar no exterior, deveria considerar também a Alemanha que recebe estudantes fluentes em inglês com boas notas, e oferece curso universitário gratuito para estrangeiros.

Links interessantes:

10 Universities That Offer International Students the Most Aid

Top 20 U.S. Colleges Accepting International Students

50 great Affordable Colleges for International Students

Revisão da Lei Americana “No Child Left Behind”

learningApós anos de críticas e meses de debates, ficou pronta hoje a revisão da lei “No Child Left Behind” que, se tudo correr como o esperado, poderá ser votada na primeira semana de dezembro. Numa conquista rara para o congresso americano, o novo projeto de lei foi desenvolvido através da cooperação entre os dois partidos políticos americanos, o Democrata e o Republicano.

A lei criada em 2001 é questionada há anos por ser excessivamente punitiva às escolas que servem as comunidades mais carentes dos estados americanos. Através de um controle por testes padronizados o governo federal pune as escolas com médias baixas cortando suas verbas, o que levou ao fechamento de várias escolas em comunidades carentes que não conseguem sobreviver sem o subsídio federal. Falei brevemente sobre o tema num post de 2012.

Numa tentativa de mudar o foco dos currículos escolares dos estados em testes padronizados, e sim em melhorar o nível de ensino por todo o país de maneira mais coêsa, o governo americano criou o Common Core. Os primeiros testes acadêmicos desde sua introdução em 2010 saíram no começo deste ano, mas para sabermos se o novo programa atingirá o objetivo de preparar as crianças para enfrentar os desafios atuais do ensino superior, e do mercado de trabalho, teremos que esperar mais alguns anos.

Minha experiência pessoal com o programa, através da minha filha que está na sétima série, numa escola pública considerada uma das melhores do país, está sendo muito positiva. Em matemática, por exemplo, o Common Core estabelece que as crianças não devem apenas solucionar os problemas aritiméticos, mas sim desenvolver a compreensão do processo que a levou a solucioná-los. As escolas tem liberdade para desenvolver seus programas. O Common Core é um conjunto de parâmetros, e não de métodos. E cada estado pode desenvolver o seu currículo respeitando os parâmetros e objetivos do programa, que são bastante ambiciosos.

A Califórnia está entre os estados que estão participando dos primeiros testes padronizados que ainda estão em desenvolvimento. Através dos resultados de cada teste o comitê responsável pelo teste ajusta sua metodologia. O objetivo é um teste em comum para todos os estados, hoje em dia cada estado tem seu próprio teste com diferentes padrões de dificuldade o que reflete seus diferentes padrões de ensino. Agora todos serão nivelados, espera-se que por cima.

 

Paulistano em São Francisco Sente-se em Casa

De Volta ao Caos Urbano na Baía de São Francisco

De Volta ao Caos Urbano na Baía de São Francisco

Após vários anos vivendo em subúrbios americanos super tranquilos na Flórida e na Georgia, mudei para a Baía de São Francisco na Califórnia. Estou de volta ao caos urbano.

       Transito, com direito a buzina, palavrão (sendo jerk, uma versão chula de idiota em inglês, o mais suave), e claro, gestos obscenos. Ah, e multas, coisa que não fazia parte da minha vida há muitos anos;

       Poluição, já faz duas semanas que apesar do frio não se pode acender lareira tradicional, sabe, do tipo que leva pedaços de madeira. Só quem tem o sistema a gás pode usar a lareira até sairmos do vermelho no índice de poluição atmosférica local;

       Pedintes nas esquinas, e sem teto vivendo em barracas de acampamento nos parques (se bem que para os padrões brasileiros tem sem-teto aqui até que bem equipado, mas também tem aqueles que dormem sobre papelão nas calçadas). Pelo menos não se vê crianças pedindo nas ruas;

       Filas enormes para pagar compras no supermercado, isso eu não enfrentava desde Xangai;

       Achar lugar para estacionar é um parto. Até os estacionamentos lotam, e há que se rodar para encontrar uma vaguinha apertada. Fazia anos que eu não precisava estacionar na paralela tanto quanto em São Francisco;

       Esperas absurdas nos restaurantes;

       Filas em postos de gasolina, juro;

       Custo de vida altíssimo, começando pelo preço do combustível, que na Califórnia é o mais alto dos Estados Unidos, tudo aqui é um absurdo. Os imóveis são ridiculamente caros, alugueis, escolas particulares, alimentos, enfim, somente os itens de consumo como eletrônicos, brinquedos, e roupas seguem os padrões que os brasileiros normalmente encontram no restante do país;

       Filas espetaculares no pedágio para atravessar a ponte “Bay Bridge” de Oakland para São Francisco, sabe quando a gente vai para o litoral em feriado, em fim de semana de jogos e shows grandes na cidade, fica daquele jeito, sem brincadeira, é de desanimar;

       Serviço público de qualidade duvidosa. Nem acreditei no atendimento que recebi num posto dos correios aqui perto de casa. Me senti em São Paulo;

       Correria insana, todo mundo está sempre correndo para lá e para cá num vai e vem incessante;

Enfim, estou me sentindo paulistana de novo. O stress está aumentando, a paciência acabando, e aquele jeitinho tranquilo que a gente adquire após anos vivendo em ambientes bucólicos (tipo cidadezinha do interior), está aos poucos sendo substituído por um certo ar de determinação, e aquela atitude de sai-da-frente-que-atrás-vem-gente, que todo habitante de grande metrópole conhece bem.

Location ratings 2012 – como anda a qualidade de vida pelo mundo…

Em um estudo recentemente concluído pela consultoria ECA International foi avaliada a qualidade de vida de 265 cidades no mundo inteiro, sob a referência europeia. O objetivo do estudo é fornecer base de cálculo para o pagamento de ajuda de custo a funcionários expatriados para que estes consigam manter o padrão de vida na nova cidade, independente da cidade de origem.

O estudo “Location Rating” avalia qualidade do ar, clima, sistema de saúde, possibilidades de integração, criminalidade e segurança, possibilidades de contato social e oferta de atividades de lazer, infraestrutura e tensões politicas. De acordo com a consultoria, o ranking leva em consideração também a relação entre as condições de vida na cidade de origem e na de destino.

O resultado desse ano mostrou que Berna (Suíça) e Copenhagen (Dinamarca) são as cidades que oferecem a melhor qualidade de vida no mundo, seguidas por Luxemburgo. Stuttgart, Antuérpia e Genebra aparecem em 4. lugar. A lista com as cidades top 50 para expatriados europeus, assim como as 10 piores cidades, estão no link:

http://www.eca-international.com/news/press_releases/7654/ – .T54wcO3vYYM

As cidades alemãs Stuttgart, Düsseldorf, Munique, Frankfurt, Bonn, Hamburgo e Berlin aparece entre as top 15 locations. Os principais motivos apontados foram a segurança, boas escolas, qualidade de moradia, limpeza do ar e a excelente infraestrutura. Paris e Madrid estão empatadas no 23. lugar, Londres ficou em 31. lugar (devido a preocupações com a segurança) e Moscou, 139.

Saindo do continente europeu, as cidades de Vancouver e Toronto no Canadá oferecem as melhores condições para expatriados e aparecem no 23. lugar do ranking, pelo fato de as diferenças culturais serem relativamente pequenas. A qualidade do ar, o sistema de saúde e oferta de mercadorias e serviços foram também avaliadas positivamente.

Na América do Sul os principais problemas apontados foram a falta de segurança e a poluição ambiental. São Paulo e Rio de Janeiro, que aparecem na 135. posição, assim como Cidade do México (146.), Caracas (185.) e Porto Príncipe (261.) tiveram nota muito ruim no quesito segurança. Santiago do Chile (85.) e Cidade do México (146.) tiveram mundialmente as piores notas para qualidade do ar.

As estrelas asiáticas foram Cingapura (66.) e Kobe (70.). Tóquio e Yokohama caíram do ranking após as catástrofes no Japão em 2011. A terceira colocada na Ásia foi Hong Kong, apesar da qualidade do ar ser ruim. Pontos positivos foram a existência de excelentes escolas, moradia, sistema de transporte e a oferta de produtos e serviços. Na China a vencedora foi Shanghai (127.), seguida de Pequim (129.)

Cidades indianas como Bangalore (159), Nova Deli (185), Chennai (194) e Mumbai (206) conseguiram notas boas nos quesitos escolas, moradia e oferta de bens para expatriados. O ponto negativo é o sistema de saúde.

Na Austrália foram Canberra (35), Melbourne, Adelaide (38) e Sidnei (46) eleitas as melhores cidades.

No Oriente Médio e África, tradicionalmente localidades de difícil escolha para europeus, várias cidades caíram ainda mais de posição em comparação a 2011. A situação politica piorou com o aumento de tensões sociais aumentaram a preocupação com a segurança. Trípoli caiu 29 posições, para o 257 lugar e Cairo caiu de 156 para 178. Damasco caiu 25 posicoes e ficou em 189. lugar. Para os europeus Tel Aviv (83) permanece a melhor cidade na região, à frente de Dubai e Doha (90) e Abu Dhabi (92).

No link abaixo estão várias publicações relativas a esse estudo produzidos em diversas línguas e sob perspectivas de diversas culturas, para quem quiser pesquisar mais.

http://www.eca-international.com/news/press_releases

Matéria e Anti-matéria

Até onde me consta, foi nos tempos de Hitler que a ideia de que não existe substituto para a mãe alemã no que diz respeito ao cuidado e educação de seus filhos foi propagada. Por isso as políticas de licença maternidade, construção de pré-escolas e berçários estimularam as mães a cuidarem dos filhos até os 3 anos de idade. Como consequência existe hoje na Alemanha falta de infraestrutura para atendimento às crianças de pré e ensino fundamental.

Há cerca de 4 anos foi ampliado o sistema nas pré-escolas para receber crianças a partir de 2 anos (antes era a partir de 3 anos). Meu filho fez parte da primeira turma de crianças no Kindergarten dele que começaram a frequentá-lo com 2 anos, para se ter uma idéia. Eu mesma recebi olhares de reprovação por parte de mães mais conservadoras, como se fosse pecado entregar o filho para outra pessoa cuidar aos 2 anos de idade! A mudança foi grande também para o sistema: adaptar instalações, treinar pessoal, mudar a rotina para acomodar hora do sono ou troca de fraldas, etc.

E as crianças de 0 a 2 anos? Recentemente saiu uma reportagem na revista Stern sobre a dificuldade de se conseguir uma solução que agrade a pais e crianças. As mães que precisam ou querem trabalhar não têm muita opção: contratar uma “cuidadora” que fica com o bebê durante o dia ou por algumas horas (o que é caro, pois tem que ser pago com recursos próprios), ou tentar a loteria de conseguir uma vaga em uma das raras instituições que os recebem.

Outro ponto importante é o período em que as escolas atendem. Pré-escolas só estão abertas até às 16:30 horas (quando muito!), escolas primarias até às 13 horas e recreação à tarde até às 17 horas (também quando muito!). Meu leitor pode imaginar a dificuldade que é se conciliar trabalho em período integral e família vivendo aqui.

As mulheres que já trabalhavam antes da maternidade gozam porém de uma situação bem mais confortável. Elas podem optar por não trabalhar 100% do tempo após a licença maternidade. E as empresas têm que aceitá-las de volta, pois não podem dispensá-las por esse motivo. É comum porém o remanejamento de funções após a licença, pois nem todo trabalho pode ser realizado por exemplo das 9 às 15 horas.

Há uma parcela considerável de mulheres que, por não conseguirem emprego no seu nível de qualificação, sujeitam-se aos chamados “minijobs” (trabalhos na área da limpeza, catador de lixo, atendente de posto de gasolina ou de padaria, telefonista, etc) ou empregos em período parcial. Quando elas se aposentarem, receberão uma quantia que claramente não será suficiente para cobrir suas despesas na velhice, pois não terão contribuído para o sistema de previdência.

Só para se ter uma idéia: uma trabalhadora que ganha 1440 euros em período integral terá depois de 35 anos de contribuição somente 500 euros de aposentadoria. (Nossa geração é a primeira que está fazendo plano de complementação de aposentadoria. Acabou-se era dos velhinhos abonados do pós-guerra, que deixam os filhos e netos em casa e viajam metade do ano pelo mundo.) Mulheres que só tiveram os chamados “minijobs” de 400 euros terão após 45 anos de trabalho míseros 139,95 euros!

O poder público não está conseguindo adaptar a estrutura ao mercado de trabalho com a velocidade necessária. A solução proposta pelo atual governo é instituir uma ajuda financeira para mães que se proponham a ficar em casa para cuidar dos filhos e, claro, abdiquem de suas vagas nas pré-escolas (chamado de Betreuungsgeld). Não sei o que é pior: a doença ou o remédio…

O “milagre” funcionaria assim: a partir de 2013 seriam pagos 100 euros, a partir de 2014 o salario-fogão seria de 150 euros…. Em um dos Estados onde esse sistema já foi implementado em 2006 só optam por esse auxílio – mínimo, diga-se – aquelas que já ganham pouco, pois a ajuda representa uma parte não desprezível do orçamento mensal.

Não é muito difícil imaginar o que acontecerá. O problema da empregabilidade das mulheres vai provocar uma onda de aposentadas pobres no país (calcula-se um aumento dos atuais 2% para 10% até 2025), principalmente na antiga Alemanha oriental, dizem os críticos. Para “solucionar” esse problema, o governo também está propondo um complemento de aposentadoria para essas mulheres que acham emprego nos “minijobs”, além dos seguros que já existem hoje….

No mesmo artigo o autor chamou as duas partes do plano de Matéria e Anti-matéria: quando se encontram, eles se destroem, desperdiçando uma enorme quantidade de energia. Ótima definição! Ao invés de investirem no sistema de educação primaria e pré-escolar para garantir condições das mães irem trabalhar e construir suas existências, arrumam soluções que se contradizem e que dificultam o reingresso no mercado de trabalho a essas mulheres, gerando pobreza. Como disse o autor da crítica, teria que acontecer uma revolta feminista no governo!

Situação de aposentado pobre nós brasileiros conhecemos bem. O que me assusta é que essa realidade pode estar chegando aqui, se não for feito nada para impedir. Tanto recurso e conhecimento pra quê? Assim como no Brasil, aqui política também é assunto para “gente grande”. Ajuda demais muitas vezes atrapalha…

Minha vivência de pré-escola

Já que estamos falando em educação,  acho que chegou a hora de falar um pouco sobre o sistema daqui. Vou começar falando sobre a pré-escola.

As crianças de 02 a 06 anos vão ao Kindergarten (Jardim da Infância, literalmente, inclusive o conceito e o termo foi inventado aqui e copiado para o resto do mundo). Na escolinha do Gabriel, que era católica, haviam 3 grupos de 25 crianças cada, orientados por 3 educadoras. Há escolinhas menores, mas não conheço maiores. Há também as evangélicas e as públicas, sem confissão religiosa.

Em cada grupo há mistura de idades, não tem maternal, jardim e pré como no Brasil. As crianças de diferentes idades convivem e brincam no mesmo grupo, claro que respeitando os diferentes interesses. O interessante é notar que os mais velhos ajudam a cuidar dos mais novos, os que chegam. Acho que é por isso que os parquinhos aqui são tão tranquilos…

Não há programa pedagógico ou apostilas, também não é função da pré-escola alfabetizar. As educadoras estão lá para orientar e dar suporte às crianças no que elas têm vontade de fazer: criança tem que brincar. Alguns rituais e rotinas são encaixados na manhã da criança: música, círculo de conversa, rituais relacionados à Páscoa ou Natal, por exemplo.

Outro dia um brasileiro expatriado comentou essas diferenças comigo. Ele estava comparando o período em que os filhos dele iam à pré-escola em São Paulo. Todo dia havia um caderno, onde era anotado tudo o que as crianças faziam: o que e a que horas comeu, se dormiu, quanto dormiu, num nível de detalhe impressionante. Aqui não há nada disso. Educador é muito caro pra ficar escrevendo recadinho para pai e mãe, eles pensam. Anualmente há uma reunião, individual, com cada pai ou mãe, onde é falado sobre o desenvolvimento, os pontos fortes e os de melhoria de cada criança. E sempre que acontece algo que merece ser falado, a comunicação é feita na hora. Não senti falta de caderninho, não.

Quando a criança completa 5 anos ela é considerada um pré-escolar. Todas as crianças que irão para a 1a. série participam de um programa especial dentro do Kindergarten, que visa o preparo para a escola. Duas ou três vezes por semana uma parte da manhã para desenvolver atividades que trabalham melhor a coordenação motora fina para a escrita, as formas, eles passam a conhecer (oficialmente) algumas letras, etc.

O programa citado acima também visa minimizar problemas no início da vida escolar. De acordo com a mentalidade daqui, é uma mudança associada com bastante stress para as crianças. A criança passa não só a brincar, mas a ficar atento, a se concentrar, a seguir calendário, a fazer lição de casa…. Então o “peixe é vendido” devagar e de uma maneira a criar uma imagem positiva da nova situação.

A mochila é um símbolo dessa nova fase, ela geralmente é comprada com meses de antecedência. Além disso a criança vai junto para fazer a inscrição, faz visita na escola, onde participa de atividades em conjunto com os ex-colegas de Kindergarten que já estão na escola, há exame médico. No primeiro dia de aula todos recebem a “Schultüte”, um cone de papel e tecido em que é colocado um monte de presentinhos e doces para os recém escolarizados, há celebração religiosa e os alunos preparam uma festa para recepcionar os estreantes.

Ao final do Kindergarten cada um leva pra casa uma pasta grossa, tipo essas de arquivo. Durante os anos de Kindergarten eles mesmo decidem o que vai ser colocado na pasta. Isso estimula a independência da criança. O resultado é um “resumo” do que se passou… as atividades, os desenhos preferidos, a evolução, fotos, as avaliações, está tudo lá. Feito pela própria criança que, sem saber, escreveu um diário.

Através do Kindergarten não só as crianças ampliam seu contato social, os pais também. É quando a integração entre as famílias acontece. É comum nesse período que as crianças se visitem, mas ainda acompanhadas dos pais. Duas situações facilitam muito a integração de quem vem de fora: ter criança ou ter cachorro. No meu caso posso dizer que meu filho foi a chave para a integração mesmo. Mas não foi só isso.

Ainda vou falar mais sobre esse assunto, que nos últimos anos tem me ocupado bastante.

Educação Pública de Qualidade nos Estados Unidos e no Brasil Também

Existem dois fortes preconceitos que nós brasileiros temos, achamos que o ensino público no Brasil é péssimo em geral, e que nos Estados Unidos é sempre excelente.

Não vou falar aqui de generalizações que não são úteis e apenas forjam desentendimentos, ao contrário o que quero é esclarecer que existem ótimas e péssimas escolas públicas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

O sistema educacional americano passa por uma forte crise, não apenas relacionada a crise econômica, apesar desta ter incrementado o problema significativamente, mas também ligada ao “No Child Left Behind Act”. Este ato do congresso americano foi implementado durante o governo do ex-presidente  George W. Bush  e direcionou uma grande parte dos recursos humanos e financeiros do sistema educacional do país a atender crianças com dificuldades no aprendizado, em detrimento de programas mais estimulantes aos bons alunos. Certamente esta não era a intenção do programa quando foi lançado, mas foi a consequência de regras que determinam que escolas com baixa média nos testes estaduais padronizados não recebam recursos federais. Sem contar as fraudes que ocorreram em distritos de baixa renda, desesperados por não perder recursos. A intenção foi boa, mas o resultado questionável, e vários estados estão batalhando para revogar a lei federal. O estado de Indiana em conjunto com outros nove estados americanos já conseguiu revogar a lei.

Por todo país buscam-se soluções viáveis para a recuperação do sistema educacional público americano, recentemente um artigo da revista TIME destacou um novo projeto do Departamento de Educação da Cidade de Nova York em parceria com a Faculdade de Tecnologia da Cidade de Nova York, a Universidade da Cidade de Nova York, e a IBM: A P-Tech, ou “Pathways in Technology Early College High School” é uma escola com sistema de admissões aberto, ou seja, não se restringe a receber alunos dentro de um único distrito escolar.

Este projeto faz parte do esforço para melhorar a qualidade de ensino nos Estados Unidos, e tem como objetivo alimentar a indústria americana que no momento sofre carência de mão de obra especializada com nível médio de ensino.

Este modelo é novo, mas seu sistema de admissão de alunos lembra muito as escolas magnéticas americanas. “Magnet Schools” foram criadas na década de 60 com o objetivo de diminuir a segregação nas escolas americanas através da oferta de currículos especializados que atraem alunos de diferentes distritos escolares. Estas escolas têm propostas de ensino variadas, desde cursos técnicos profissionalizantes nas áreas de biológicas e exatas, a programas voltados às artes.

No Brasil temos as escolas técnicas federais e estaduais que também admitem alunos de diversos distritos escolares desde que passem nos seus vestibulinhos. Também temos currículos variados desde cursos profissionalizantes em tecnologia como o da Escola Técnica Federal de São Paulo – http://www.ifsp.edu.br/ – a programas como o CODAI que oferece cursos técnicos em agropecuária com especializações até em queijos, e que não fica em Minas Gerais, mas sim em Pernambuco.

De acordo com o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) entre 2006 e 2009 os Estados Unidos caíram de 14º em leitura para o 16º lugar; de 25º a 34º em matemática; e de 17º a 22º em ciências. Mesmo assim estão muito a frente do Brasil. A boa notícia porém é que a análise comparativa dos resultados dos testes de 2006 e 2009 demonstram que o Brasil está progredindo rapidamente nas três matérias avaliadas pela organização. Vamos aguardar os resultados de 2012.

Se você está de mudança para os Estados Unidos e tem filhos em idade escolar, siga a prática americana de escolher casa de acordo com o distrito escolar, mesmo que tenha que rodar um pouco mais para ir trabalhar.

Confira os links abaixo:

http://www.greatschools.org/

http://www.thedailybeast.com/newsweek/features/2011/americas-best-high-schools.html

https://www.magnet.edu/modules/news/article.php?storyid=220

http://www.neighborhoodscout.com/ca/schools/

http://www.schooldigger.com

http://nces.ed.gov/ccd/schoolsearch/

Se você vive no Brasil e busca uma boa alternativa no ensino público, visite estes sites:

http://www.etesp.com.br/escolas.php

http://redefederal.mec.gov.br/index.php

Inventário

Conjunto para café de porcelana. Presente de casamento de minha tia-avó Filomena Belasques para minha mãe que me presenteou este tesouro de família quando eu saí do Brasil.

Você sabe quanta coisa tem na sua casa? Não assim tipo mais ou menos, mas detalhadamente? Pois é, este é um dos grandes desafios das mudanças em geral, e quando é internacional então, fica ainda mais complicado.

Não basta saber que você tem talheres, precisa saber com precisão quantos garfos, facas colheres, colherinhas de chá e café, ah, e não esqueça dos garfinhos de sobremesa, e nossa, já ia esquecendo dos talheres de servir. Enfim tem que saber tudinho, tintim por tintim. Comportamento obsessivo-compulsivo ajuda nestas horas.

Para que tudo isso? Para completar a documentação do seguro, mais precisamente o inventário. E acredite-me, não vale a pena cortar caminho, sem um inventário detalhado quem sai perdendo é você. Por que se você escrever xícaras e colocar um valor geral, e por azar aquela xícara de porcelana com decoração de ouro 24 quilates que foi da sua tia-avó quebrar durante a mudança, o seguro te ressarcirá o mínimo possível e o problema é seu. Quem mandou não especificar a tal xícara como antiguidade e estabelecer um valor adequado?

Portanto se algum dia você se deparar com um pedido de inventário para mudança tome seu tempo, e seja extremamente detalhista. Assim você terá como negociar melhor sua indenização em caso de perdas ou danos.